
As coleções biológicas de parasitas estão se mostrando cada vez mais importantes tanto para
a pesquisa básica bem como para o desenvolvimento de tecnologia e inovação. Em relação
ao
Trypanosoma cruzi, embora muitas cepas sejam largamente utilizadas e consideradas como
referência, não há nenhuma coleção bem estabelecida de isolados derivados de mamíferos
silvestres de vida livre. Adicionalmente, a maioria dos estudos experimentais vem sendo
conduzidos com cepas longamente mantidas em condições de laboratório, ou seja, submetidas
às pressões seletivas inerentes aos métodos de passagens sucessivas, amplificação e estocagem.
Há ainda que se considerar, a grande variabilidade genética, biológica e molecular,
tão característicos do táxon que levanta a questão: serão os isolados habitualmente
utilizados nos trabalhos realmente representativos do táxon?
Um segundo aspecto a ser considerado refere-se à mudança de perfil epidemiológico da doença
de Chagas no país, em especial na Amazônia, expressos por numerosos casos de infecção
pela via oral, embora em menor quantidade também pela via vetorial (triatomíneos invasores)
que demanda um estudo das características das subpopulações do parasita como forma de contribuir
para o conhecimento da epidemiologia e, portanto, do controle da doença.
Nosso grupo vem estudando a infecção de mamíferos silvestres infectados por
T. cruzi há mais de duas décadas, tendo armazenado aproximadamente 500 isolados
que datam desde 1994, provenientes de mamíferos silvestres, domésticos e vetores
infectados em todos os biomas e regiões do país. Os isolados obtidos desses mamíferos
vêm sendo criopreservados em nitrogênio líquido (-196˚C).
O acervo de isolados, mantido no
Laboratório de Biologia de Tripanosomatídeos,
LabTrip, atendia principalmente as pesquisas desenvolvidas no Laboratório bem como a
seus colaboradores nacionais e internacionais internos e externos à
Fundação Oswaldo Cruz,
Fiocruz, sendo considerada principalmente uma Coleção de trabalho/pesquisa. Após uma
avaliação criteriosa realizada em 2007 pelo Fórum das Coleções da Fiocruz, em 19 de abril de 2009,
o acervo foi reconhecido institucionalmente integrando as coleções da
Fiocruz, recebendo o nome de
Coleção de Trypanosoma de Mamíferos Silvestres, Domésticos e Vetores, acrônimo
COLTRYP.
Uma das principais características do nosso acervo é que os isolados de
T. cruzi
são criopreservados logo após o isolamento do parasita com poucas passagens em culturas, o
que mantêm sua estrutura populacional. Além disso, os seguintes serviços são oferecidos pela
COLTRYP:
i) isolamento, ii) identificação e/ou caracterização dos isolados de
T. cruzi,
iii) doação e deposito de amostras biológicas e
iv) treinamento de recursos humanos.
O principal objetivo da
COLTRYP é estabelecer um acervo de isolados representativos
da diversidade do taxon
T. cruzi obtidos de espécies de hospedeiros silvestres,
domésticos e vetores, incluídos em sete ordens de mamíferos
(Artiodactyla, Carnivora, Chiroptera, Didelphimorphia, Primates, Rodentia e Xernathra) e
uma família de triatomíneos vetores (Reduviidae) amostrados em diferentes ecossistemas
distribuídos nos principais biomas brasileiros no Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica,
Mata Amazônica e Pantanal.
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Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) Foto: Ana Maria Jansen |
Porco Selvagem (Sus scrofa) Foto: Rita de Cassia Bianchi |
Morcego (Artibeus planirostris) Foto: Ana Maria Jansen |
Gambá (Didelphis albiventris) Foto: Ana Maria Jansen |
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Mico-leão–dourado (Leontopithecus rosalia) Foto: Rodrigo Mexas |
Quati (Nasua nasua) Foto: Fabiana Lopes Rocha |
Tatu (Euphractus sexcinctus) Foto: Ana Maria Jansen |
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Catalogação Informatizada da COLTRYP
A
COLTRYP também tem como objetivo disponibilizar seu acervo on-line através do
Sistema de Informação de Coleções de Interesse Biotecnológico, SICol, desenvolvido pelo
Centro de Referência em Informação Ambiental, CRIA (Campinas, SP). A
COLTRYP oferece
acesso público (http://coltryp.fiocruz.br/catalogo) ao catálogo de isolados de
Trypanosoma cruzi, incluindo
informações biológicas, moleculares e geográficas referente ao material biológico,
dando sustentação aos programas de pesquisa e inovação tecnológica. Para isso integra o Projeto
de Pesquisa: Implantação e Estruturação do Centro de Recursos Biológicos em Saúde
e Ambiente da Fundação Oswaldo Cruz com apoio financeiro do
Fundo Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico e Finep – FNDCT, MCT/FINEP.
O SICol, além de permitir o acesso on-line aos dados disponíveis nos Centros de Recursos
Biológicos - CRB do país, promove a integração com outros sistemas de informação internacionais,
como Common Access to Biological Resources and Information (Cabri), Global Biodiversity
Information Facility (GBIF) e a colaboração com outros grupos de pesquisa no Brasil e exterior,
incluindo a rede cooperativa vinculada ao programa ChagasEpiNet [Consórcio Internacional sobre
Epidemiologia Comparativa de linhagens genéticas de
Trypanosoma cruzi - Projeto financiado pela Comunidade Européia (2009-2013)].